Se ela dança, eu danço

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         A dança da deputada federal Angela Morais Guadagnin (PT-SP) no Plenário da Câmara Federal, tão comentada nos últimos dias e que é até capa da revista Veja desta semana, causou indignação e espanto em várias pessoas. Diversos programas de televisão falaram sobre o assunto e manifestaram a vergonha nacional diante da atitude da parlamentar.

     Mas quem se surpreendeu com a dança da deputada ou não sabe como as questões públicas são tratadas naquela casa ou é daqueles adeptos da velha lógica que diz: “roube, mas não deixe ninguém ver”.

     As cenas ridículas da parlamentar comemorando a absolvição do companheiro de legenda, o deputado João Magno, são expressão do que ocorre diariamente no Congresso. Certamente, outros deputados e senadores, mesmo que intimamente, sem que ninguém visse, já dançaram ou até pularam de alegria pela impunidade conquistada como um troféu, um título de campeonato. E não só em Brasília. Em várioss recantos do país, outros detentores de cargos públicos também entraram nessa ou em outras danças.

     Por que nos indignamos com a dança da deputada? Talvez porque dessa vez os olhos viram e o coração sentiu. Mas mesmo que os olhos não vejam, se ela dança, eu “danço”, como diz a letra do funk. Se eles dançam e festejam a conquista dos seus interesses políticos particulares, nós “dançamos”, somos lesados por aqueles que deviam nos representar e defender o interesse público.

     A atitude da deputada foi a expressão de uma realidade que, de tão usual, acaba vindo à tona de alguma maneira. Aconteceu o mesmo com o ex-deputado e presidente da câmara Severino Cavalcanti. À época do mandato dele, a imprensa e outros parlamentares abriram fogo e se mostraram indignados com a postura pouco ética do então presidente. Mas a única diferença dele para os outros era que Severino defendia seus interesses publicamente.

     Diante disso, muitos parlamentares posaram de bons moços diante das câmeras, acusando o deputado de quebra de decoro parlamentar. A grande maioria (para não dizer todos, pois toda generalização erra, ainda que por muito pouco) também queria aumentar o próprio salário e era a favor da manutenção do nepotismo, mas ninguém assumia, por isso mantinha a postura “exemplar” e não quebrava o “decoro”.

     A própria eleição de Severino foi uma mostra clara de como os interesses públicos são tratados (ou seria destratados?) por quem deveria defendê-los. O então candidato à presidência da casa venceu, principalmente, com os votos da oposição. Certa vez, perguntada sobre a qualificação de Severino para o cargo, a deputada Zulaiê Cobra (PSDB) afirmou: “eu quero é que o governo perca”. Na última sexta-feira, num programa de TV, a mesma deputada defendeu a absolvição do tucano Eduardo Azeredo (PSDB-MG), acusado de receber e não declarar R$ 9 milhões das contas de Marcos Valério. Comos justificativa, a deputada disse que esse era um caso de caixa dois das eleições de 1998 e que, por isso, não tinha nada a ver com o que estava acontecendo agora. Será que a prática de caixa dois é menos criminosa por ser mais antiga ou por envolver alguém do partido da deputada Zulaiê?

     Este ano as eleições prometem mais coreografias ainda mais absurdas do que a da deputada Angela Morais Guadagnin. E nas danças das legendas, das cadeiras, dos cargos e das barganhas quem acaba dançando mesmo somos nós.

Alexandre Santos
*artigo publicado no dia 27/03/2006 na editoria de Política do site Portal Católico (www.portalcatolico.org.br)

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