O Espetáculo de Garotinho

                                                                Charge: Rico
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     Parece que virou moda. Primeiro foi o bispo católico a fazer greve de fome para impedir o início das obras para a transposição do Rio São Francisco e atrair as atenções de toda a imprensa nacional, e até internacional, para o problema da preservação do Velho Chico, deixando o governo numa verdadeira sinuca de bico.

     Agora, o ex-governador do Rio de Janeiro e pré-candidato à Presidência da República pelo PMDB, Anthony Garotinho, resolveu se valer da mesma estratégica para protestar. Ele reclama da “insensibilidade” da imprensa brasileira, que divulgou denúncias de favorecimento de aliados seus, que teriam movimentado cerca de R$ 242,8 milhões, sem licitação, através de entidades “sem-fins-lucrativos”, criadas por meio de empresas de fachada. Coitadinhos, era tudo para a caridade.

     Em uma sala da sede regional do partido, no Centro do Rio, Garotinho montou o que chamou de “lugar do sacrifício”. Na verdade, é uma sala com porta de vidro, através da qual ele se deixa observar, filmar e fotografar em suas atividades de “grevista”.
 É um verdadeiro Big Brother com uma carga dramática digna dos folhetins mexicanos, protagonizada pelo figurão carioca, a governadora e esposa, Rosinha Matheus, os filhos do casal, que foram visitá-lo ontem, além de correligionários, assessores, o médico da família e amigos que estiveram presentes à encenação.

     E para aumentar ainda mais o “sacrifício” do ex-governador, ele recebeu a visita do candidato derrotado à prefeitura de Campo-RJ, Geraldo Pudim. É uma indelicadeza sem tamanho um cara com um nome desses visitar uma pessoa que está fazendo greve de fome, não é verdade? Afinal, pudim é uma tentação. Isso não se faz!

     O médico particular do “grevista” informou que Garotinho já perdeu 700 gramas desde o início do protesto. Se a moda pega, o ex-governador pode até lançar seu próprio sistema de emagrecimento e criar um spa especializado em políticos que querem fazer greve de fome para protestar contra as denúncias da imprensa. Já imaginou quantos iam procurar pelo serviço? Ia ganhar a maior grana.

     Coisa boa é fazer greve de fome deitado num sofá macio, numa sala bonita, com frigobar, água mineral, ar-condicionado, médico de plantão.

     Para melhorar ainda mais o clima dramático do seu feito, o ex-governador deveria ter ido fazer greve de fome em uma das várias favelas do Rio ou nos bolsões de pobreza espalhados pelo Brasil. Nesses lugares, milhares de pessoas vivem em condições sub-humanas, passando fome involuntariamente sem dar espetáculo, tudo em conseqüência da ação desses “coitadinhos” que desviam dinheiro público em favor próprio.

     Os pobres não têm frigobar nem água mineral. Muitos bebem água barrenta ou contaminada, e só aparecem no noticiário quando morrem ou matam.

     Médico particular? Isso é que eles não têm mesmo. Sofrem dia-a-dia para serem atendidos nos hospitais públicos e, depois de muitos meses, quando conseguem, são mal atendidos, desrespeitados na sua dignidade.

     Se o ex-governador perdeu 700g em dois dias de greve, ele deveria ir aos sertões e caminhar quilômetros com uma lata na cabeça para levar água para dentro de casa. E nem precisava ir tão longe, era só passar uns dias de trabalhador comum, que pega duas ou três conduções lotadas para chegar ao trabalho, passar o dia todo no batente e gastar mais uma hora e meia na volta para casa. Essa maratona toda para chegar no final do mês e ganhar um salário mínimo.

     O bom mesmo era que toda a imprensa se calasse diante da “greve” (leia-se jogada de marketing) do ex-governador que pretende ser presidente. Seria bom que nenhum jornalista, cinegrafista ou fotógrafo fosse à redoma de vidro e que ninguém mostrasse o “sacrifício” (leia-se espetáculo) do Garotinho, que faz beicinho e chorominga para todo mundo olhar para ele. O pré-candidato do PMDB parece estar sofrendo de falta de atenção, problema típico de quem deseja crescer nas pesquisas eleitorais.

     A melhor solução seria ignorar o esperneio. Garanto que o espetáculo acabaria rapidinho.

Alexandre Santos
Publicado no dia 2/05/2006
www.portalcatolico.org.br

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