Nem reality nem show

Charge do cartunista Baloo - Fonte: toonpool.com

Charge do cartunista Baloo - Fonte: toonpool.com

Outro dia, zapeando a TV, vi o anúncio de um novo programa. Morando com o Inimigo, que deve estrear em breve no SBT, é mais um daqueles chamados reality shows. Pelo que diz a chamada, vão colocar sob o mesmo teto, por três semanas, um ex-casal. Veja só que coisa: o cara não quer ver mais a ex-mulher nem pintada de ouro, mas por dinheiro a turma topa tudo, não é não?

Bom, olhando a priori, o que o programa parece pretender é criar oportunidades para que os “inimigos” se enfrentem. E quanto menos ex-marido e ex-mulher se suportarem melhor. Mas por que o desentendimento e a briga geram tanta audiência? Por que se quer ver gente trocando tapas e xingamentos, gente matando e morrendo? Será resquício do antiqüíssimo hábito de lotar arenas para ver homens e mulheres sendo devorados por leões ou para assistir à batalha dos gladiadores e clamar pela morte do derrotado? Temos sede da tragédia alheia? Temos essa estranha necessidade de se sensibilizar com a dor dos outros? Será que essa necessidade é tão vital a ponto de desejarmos que o pior aconteça, só para que possamos nos comover? Enquanto isso, os vendedores de notícia e entretenimento fazem a festa.

Voltando a falar especificamente dos reality shows, tomo como exemplo A Fazenda, que recentemente iniciou a sua quarta temporada. Outro dia, me chamou atenção a hastag #muquetadaduda na lista dos assuntos mais comentados do Twitter. Não é novidade nenhuma ver bobagens nos trending topics brasileiros, mas aquele tema inusitado despertou minha curiosidade. Quis saber do que se tratava.

Deparei-me com comentários a respeito de uma lutadora sérvia que havia sido expulsa do programa. Motivo: desferiu um tapa no rosto do irmão de um ator da Globo porque o rapaz teria apalpado os seios da moça durante uma partida de basquete aquático.

Sublinhei os termos acima para tentar, por meio de palavras-chave, entender o fato: Lutadora sérvia – tapa – irmão de ator – mão boba – basquete aquático. Por que raios o nome disso é reality show?

Reality, como todo mundo sabe (e se não sabe, dá para supor), é uma palavra da língua inglesa que significa realidade. O dicionário define realidade como “qualidade do que é real. O que não é fantasia. O que existe de verdade”.

O que há de real em 15 pessoas confinadas numa casa, fazenda ou o que quer que seja, durantes meses, sem fazer nada ou brincando de cuidar de animais, participando de joguinhos, eliminando uns aos outros e disputando um prêmio milionário? Na vida real, 99% das pessoas, por mais que trabalhem, jamais conseguirão juntar um milhão de reais. Onde está a realidade?

Voltando ao fato em si, algumas questões:

Uma lutadora é colocada num programa como esse por qual motivo? O que se espera dela? Será que ela agrediria alguém se ficasse furiosa?
Alguém se torna ator só porque tem um irmão ator, como que por herança genética? Então qual o objetivo do rapaz no programa? Seria tentar, ainda que por vias discutíveis, deixar de ser apenas o irmão do Bruno? Seria ele capaz de fazer qualquer coisa que mandassem para conseguir seu lugar ao sol?
E o basquete aquático, isso existe? O basquete é um esporte que normalmente gera muito contato físico. Mas por que numa piscina? Alguém conseguiu ver se o cara apalpou mesmo ou não, se foi um acidente ou de propósito? Será que a água atrapalha a visão tira-teima?

Bingo! Alguém aí duvida que haja um roteiro a seguir e confusões pré-fabricadas para aumentar o famigerado ibope?

Já a palavra show todo mundo de fato sabe o que significa. Mas, para não fugir do hábito, vamos consultar o papai: “Espetáculo formado de números variados, usado em programas de teatro, rádio e televisão”. E o que é espetáculo? É a apresentação de pessoas que exibem sua arte, de maneira extraordinária, que impressionam e encantam a platéia. Qual arte é apresentada em A Fazenda? O que os participantes apresentam de extraordinário? O que elas fazem ou dizem de relevante que mereça o titulo de show?

Vejamos o grupo de notáveis da edição atual e tentemos descobrir: Duda Yankovich (lutadora sérvia que foi expulsa); Dani Bolina (modelo, entrou no lugar da lutadora); Renata Banhara (Segundo o site do programa, a profissão da moça é… Personalidade da Mídia?); Thiago Gagliasso (o seu mérito é ser irmão do Bruno); Dinei (ex-jogador de futebol de carreira quase irrelevante. Que me desculpem os corinthianos); João Kleber (uma das figuras mais esdrúxulas que já vi na TV, protagonista de pérolas como o Teste de Fidelidade); Compadre Washington (compositor dos bordões “dudududupá” e “ordinária” da banda É o Tchan); Joana Machado (ex-noiva do jogador Adriano); Françóis (quem?); Ana Markun (atriz – interpretou uma mulher que virava cobra em Os Mutantes…?); Gui Pádua (deve ter caído de paraquedas); Marlon (fazia dupla com Maikon, não lembra? Cantava aquela música… ah… é, não sei.); Monique Evans (ex-modelo de sucesso nos anos 80); Raquel Pacheco (Não sabe quem é? E se eu disser Bruna Surfistinha? Lembrou, não é?); Taciane Ribeiro (quem?); Valeska Poposuda (bom, o sobrenome já revela seus atributos).

Tenho a impressão de que A Fazenda é como que um curral de sub-celebridades ávidos por um novo fôlego na carreira e, se der, levar algum prêmio ou abocanhar a grana. Aliás, o que define uma celebridade?

Alguém se torna célebre por ter realizado algo relevante para a comunidade. Considerando que, hoje em dia, uma pessoa é considerada artista pelo simples fato de ter um “popozão”, parece que os critérios se perderam.

Uma sugestão. Para saber o quanto você é célebre, faça a seguinte pergunta: Se eu não tivesse existido, se minhas obras não tivessem sido realizadas nem minhas palavras ditas, isso faria alguma diferença para o mundo? E para o continente? Para o país? O estado? Para a cidade, o bairro, a rua? Se chegar à conclusão que só faria falta à sua família, então definitivamente você não é uma celebridade.

O fato é que chegamos a 2011 com um saldo de 11 BBB’s, 4 edições de A Fazenda, 4 da Casa dos Artistas e muitos outros, com nomes diferentes, mas o mesmo objetivo: expor as idiossincrasias de seres humanos confinados na casa. Seja diante das câmeras ou de frente para a TV.

Alexandre Santos
*especial para o blog Outros Diálogos

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